sexta-feira, 17 de julho de 2009

Pizzaiolo espertalhão

Reinaldo Azevedo

quinta-feira, 16 de julho de 2009 | 7:21

Nos jornais de quarta-feira, vimos Schopenhauer Lula da Silva abraçado ao senador Fernando Collor (PTB-AL) num palanque em Alagoas. No discurso, ele atacou as relações de compadrio entre os políticos, censurou antecessores (para ele, na verdade, só existe um: FHC) e exaltou as virtudes de Collor e, claro, de Renan Calheiros (PMDB-AL), que nem estava presente, mas mereceu mesmo assim os mimos. Quem, em companhia tão ilustre e com aliados desse talante, ataca a “política do compadrio” está destinado a fazer história. Se Lula não existisse, já escrevi aqui, não deveria ser inventado. Se este senhor disputasse um campeonato do rebaixamento institucional do Brasil, bateria sempre o próprio recorde. Ontem, ele estabeleceu uma nova marca: atacou a CPI da Petrobras, dizendo ser coisa de “quem quer fazer Carnaval”, chamou os senadores de “espertos” — e, no contexto, queria dizer claramente “espertalhões” — e coroou a cadeia de grosserias acusando-os a todos de “bons pizzaiolos”.

O lead da reportagem da Folha, nesta quinta, traz, parece-me, um erro. Está lá: “Ao chamar os senadores da oposição de ‘bons pizzaiolos’…” Vi a entrevista na TV e a seqüência de perguntas e respostas. Errado! Schopenhauer Lula da Silva referia-se a TODOS OS SENADORES. No contexto, aliás, a pecha cabe mais aos da situação, aos seus aliados, do que aos adversários. Uma repórter perguntou-lhe se a CPI terminaria “em pizza temperada com pré-sal”. E ele respondeu: “Todos eles [os senadores] são bons pizzaiolos”.

Sendo assim, quem é o chefão da pizzaria? Ora, é aquele que escolheu o senador João Pedro (PT-AM) — já falo sobre ele — para presidir a comissão e Romero Jucá (PMDB-RR) para a relatoria. E, todos sabem, Lula comandou esse processo pessoalmente. O líder do PT no Senado, Aloizio Mercadante (SP), ainda soltou uma nota classificando a frase de “infeliz”. A líder do governo, Ideli Salvatti (PT-SC), nos brindou com o silêncio daqueles seus “esses” e “erres” muito peculiares. Mas João Pedro, o presidente da CPI, preferiu a galhofa: “Eu nem sei fazer pizza…” Demonstra, assim, que, do ponto de vista de Lula, é o pizzaiolo certo no lugar certo. João Pedro está naquela categoria de homens que nunca ficam corados.

Schopenhauer ontem estava impossível. Deve ter sido um daqueles dias em que exagera na água. Irritado com a CPI, observou que a Petrobras “é uma das maiores empresas do país”, o que, então, nos faz supor que empresas, a partir de determinado patamar de faturamento, tornam-se imunes a investigações.

Desrespeito antigo
Não é de hoje que Lula despreza o Congresso. Quem não se lembra de sua frase sobre os 300 picaretas? Como ele cooptou, de fato, uma esmagadora maioria no Parlamento, deve dizer para si mesmo: “Eu estava certo! Tanto é assim, que os picaretas, agora, estão todos comigo”. Lula elegeu-se deputado uma única vez e teve um desempenho abaixo do medíocre. Não dava a menor pelota para a atividade. Estava acostumado ao cesarismo sindical. Voltou a ficar à vontade num cargo público na Presidência da República, quando pode, de novo, brincar de César.

Leiam esta fala: “O Senado só tem gente experiente. Você acha que tem algum bobo no Senado? O bobo é quem não foi eleito. Os espertos estão todos eleitos. Eu aprendi com o Ulysses Guimarães: uma vez falei pra ele que tinha muita gente que não sabe de nada. E ele me disse: ‘Os que não sabem de nada são suplentes. Ninguém é eleito à toa’” Pois é… Se merece a designação de “esperto” — neste viés obviamente negativo — quem se elege senador, o que se pode dizer de quem se elege presidente? Ignorância, sabemos, não é óbice. A “esperteza” compensa.

http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/pizzaiolo-espertalhao/

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