por João Luiz Mauad em 15 de abril de 2008
Resumo: Muita gente, por pressa ou preguiça, só lê as manchetes. As pessoas que as redigem sabem perfeitamente disso, razão pela qual dão a elas muito mais importância do que à própria informação que deveriam transmitir.
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Dia desses, deparei-me com a notícia abaixo, no site do UOL. Trata-se de uma verdadeira pérola do jornalismo tupiniquim, ilustrativa da imbecilidade progressista reinante na mídia brasileira há anos. Vamos a ela, comento depois:
Economia do país para pagar juros sobe 34% e soma quase R$ 9 bi
A economia que o setor público brasileiro fez para pagamento de juros da dívida (o chamado superávit primário) em fevereiro somou R$ 8,966 bilhões, número 34,2% maior que os R$ 6,679 bilhões de igual mês do ano passado.
No primeiro bimestre, o superávit primário foi de R$ 27,629 bilhões, ou 6,22% do Produto Interno Bruto (PIB). Em 12 meses encerrados em fevereiro, essa proporção ficou em 4,18%.
Os dados foram divulgados nesta segunda-feira pelo Banco Central e se referem ao setor público consolidado, que reúne União, Estados, municípios e estatais.
O superávit primário tem um lado ruim: o governo consegue poupar dinheiro para pagar juros aumentando arrecadação de impostos e deixando de gastar, por exemplo, em investimentos em obras e serviços.
O conceito de superávit primário é a diferença entre as receitas do setor público e as despesas, sem contar os gastos com juros. Se considerados também esses gastos, tem-se o resultado nominal das contas públicas.
Déficit nominal
O montante que o setor público poupou em fevereiro, mesmo sendo 34,2% maior que o registrado um ano antes, não foi suficiente para pagar os juros no mês. Isso porque os juros nominais somaram R$ 15,444 bilhões em fevereiro, 17% a mais que os R$ 13,131 bilhões do mesmo mês do ano passado. Os números mostram, no entanto, que o superávit primário cresceu em ritmo mais rápido que os gastos com juros.
Com isso, houve um déficit nominal de R$ 6,47 bilhões em fevereiro, segundo o Banco Central. Esse déficit é a diferença entre as despesas totais do setor público (incluindo gastos com juros) e a receita.
Dívida
Não havendo dinheiro para pagar integralmente os juros em fevereiro, a dívida líquida do setor público aumentou de R$ 1,140 trilhão, em 31 de janeiro, para R$ 1,157 trilhão ao final do mês passado. Em percentual do PIB, a dívida passou de 41,9% para 42,2% no período.
Para começo de conversa, falemos do título da matéria, que, sozinho, contém elementos suficientes para se escrever um tratado sobre o jornalismo ideológico.
Muita gente, por pressa ou preguiça, só lê as manchetes. Os caras que as redigem sabem perfeitamente disso, razão pela qual dão a elas muito mais importância do que à própria informação que deveriam transmitir.
O fulano que escreveu a que vai acima nos diz, então, que a “economia do país para pagar juros” subiu 34%. Quem leu a notícia inteira ficou sabendo que o autor utilizou um disfemismo (eufemismo às avessas) – “economia para pagar juros” – para descrever a diferença, obtida no mês, entre o total de receitas do setor público e seus gastos operacionais (não-financeiros) – também chamada de superávit primário, quando positiva.
Vejam como funciona a cabecinha deles. O termo superávit denota algo positivo, mas, na visão do nosso jornalista progressista, pagar juros é algo negativo – logo, a poupança do setor público também o é. Isso fica bem claro no corpo da matéria, quando o indigitado nos dá a sua douta opinião sobre o assunto e diz, textualmente: “O superávit primário tem um lado ruim: o governo consegue poupar dinheiro para pagar juros aumentando arrecadação de impostos e deixando de gastar, por exemplo, em investimentos em obras e serviços”. Reparem como, noves fora a redação tosca, quase infantil, embora perdoável em função da pressa necessária para se colocar uma notícia no ar em tempo real – e afinal, infelizmente, os editores de texto ainda não vão além da correção ortográfica – nosso redator não esconde o seu viés ideológico, especialmente ao lamentar que o governo esteja “deixando de gastar (...) em investimentos, obras e serviços”, para “pagar juros”.
O engraçado é que ouvimos ou lemos essa mesma ladainha praticamente todo santo dia. Entretanto, raros são os comentaristas que têm coragem de levar o argumento adiante e dizer, com todas as letras, quais seriam as alternativas ao superávit primário – ou à famigerada “poupança para pagar juros”. A primeira seria não poupar e, conseqüentemente, pagar todos os juros devidos contraindo mais dívidas. A outra seria simplesmente o “calote”. Na verdade, o que nosso redator progressista pretende, subliminarmente, é fazer com que o leitor chegue à conclusão de que o “calote” seria a melhor alternativa, sem que ele precise ser claro, já que isso não seria moralmente justificável.
Ainda na manchete, encontramos outra pérola, que não sei se trato como um mero ato falho ou como uma forma de indução bem planejada. Falo, evidentemente, da confusão terminológica presente na utilização da palavra “país”, no lugar dos termos corretos: “governo” ou “setor público”. Sim, pois o leitor já deve ter notado que, para o repórter idealista, todos esses termos seriam, na sua acepção particular, sinônimos. Com efeito, para a turminha progressista, o país se resume ao Estado provedor. O resto da sociedade, ou, no caso, o resto da economia, não conta.
Se, como vimos acima, o nosso jornalista engajado não gosta do termo superávit, porque ele induz o interlocutor a pensar positivamente a respeito de algo, há quem dele faça uso com muito gosto. Falo, evidentemente, dos responsáveis pelas contas públicas, que utilizam o tal superávit primário – nada mais do que uma invenção da moderna engenharia contábil (e semântica) – justamente para tentar encobrir a verdade aos olhos da incauta e desinformada patuléia. Trata-se, para sermos claros, de um baita eufemismo, já que esconde o fato – este sim real – de que as contas do governo, ao contrário do que muita gente por aí pensa, são, na realidade, deficitárias.
Qualquer um de nós, ao fazer um orçamento doméstico, lista, no rol das despesas, todos os gastos da família. Isso inclui alimentação, moradia, educação, saúde, vestuário, lazer, etc. Todas as prestações referentes a compras a prazo ou dívidas bancárias, como o cheque especial, que embutem juros, fazem parte do nosso orçamento. Dessa forma, a prestação de uma TV nova significa, talvez, a redução das despesas com lazer durante um certo período, e assim por diante, dependendo das escolhas de cada um. Não importa qual é o tipo de gasto, se ele é financeiro ou não – o certo é que as nossas contas precisam fechar, ou seja, nossas receitas devem ser, no mínimo, iguais às despesas, para que não nos tornemos inadimplentes ou para que nossas dívidas não cresçam além do razoável. O mesmo raciocínio é válido para qualquer empresa que se preze, pois, do contrário, o caminho é a falência.
Infelizmente, no entanto, isso tudo vale somente para os simples mortais. Para o governo, não. Deitados eternamente em berço esplêndido, os governantes se acham acima do bem e do mal. Quase sempre gastam muito mais do que arrecadam, e financiam seus eternos déficits orçamentários – nominais – através da emissão de títulos ou de moeda. No primeiro caso, forçarão a sociedade a pagar impostos sempre mais altos, a fim de pagar parcelas de juros sempre crescentes e, no segundo, criarão inflação, cujos efeitos de longo prazo são devastadores.
Como ninguém acha bonito gastar mais do que ganha, especialmente a maioria dos eleitores ainda não contaminados pela ideologia esquerdofrênica do nosso jornalista, os políticos e burocratas criaram esse eufemismo matreiro chamado superávit primário. Eu disse eufemismo, mas trata-se de uma grande mentira, apoiada num mero artifício contábil.
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