terça-feira, 24 de março de 2009

A imprensa e a Contra-Revolução

24/03

A verdade sufocada

Por Carlos Alberto Brilhante Ustra

Durante o governo Jango, a imprensa foi uma das principais motivadoras da deposição do presidente.Propalou, constantemente, a existência do caos administrativo, da corrupção e do desgoverno. Participou, ativamente, da divulgação de que era imperiosa a necessidade do restabelecimento da ordem. A sociedade e a imprensa escrita e falada da época, alinhadas e irmanadas, clamavam, com manifestos e editoriais, por medidas que evitassem a derrocada do País, levando-o à anarquia. Abaixo transcrevemos alguns partes desses trechos:

(O Globo, 14/06/1963).

“Os abaixo-assinados, democratas brasileiros e dirigentes de entidades, sentem-se no dever de vir a público, no exato momento em que forças arregimentadas pelo comunismo internacional ameaçam golpear as instituições ...”

“É chegada a hora de os democratas crerem nas realidades. A revolução comunista não virá: JÁ VEIO, está instalada no poder. Está nos postos de maior responsabilidade do governo João Goulart.

Está na Petrobras, hoje entregue aos inimigos de Getúlio. Está no CGT, sem que ninguém na esfera trabalhista se levante em defesa da democracia conspurcada. Está nesse desejo criminoso de reformar a Constituição, para golpeá-la mortalmente.”

“ ... Por tudo isso, nós, dirigentes de entidades, apelamos para o senso de patriotismo dos brasileiros democratas: defendam até o último instante os postulados da democracia, fortalecendo e incentivando o Congresso Nacional; exigindo a manutenção correta da Constituição ameaçada ...”

“ ... Se é para golpear a Constituição, haverá os apátridas de golpear, em primeiro lugar, os brasileiros que não se venderam aos desígnios do comunismo internacional. E advertimos: somos muitos os dispostos a morrer pelo Brasil dos brasileiros.

Guanabara, 13 de junho de 1963.

Aristóteles Luiz Drummond, presidente do Grupo de Ação Patriótica; Waldo Domingos Claro, presidente da Aliança Democrática Brasileira; Sra. Amélia Bastos, Campanha a Mulher pela Democracia; João Batista Gabriel, Frente da Juventude Democrática; Caio Gomes Machado, Brigada Estudantil em Defesa da Democracia; Floriano Maciel, Resistência Democrática; e Roberto Teixeira, Movimento Estudantil Católico.”



(O Globo - 31/03/1964).


“Quando o chefe do Executivo se permite, nas praças públicas, fazer a apologia da subversão e incitar as massas contra os poderes da República que lhe estorvam a marcha para o cesarismo, pode-se afirmar que a ditadura, embora não institucionalizada, é uma situação de fato.”

(Editorial de O Estado de S. Paulo, 14/03/1964).

“Agora se decidirá se nós conseguiremos superar a terrível crise provocada pela inflação, pelos desajustes sociais, pelo descalabro econômico-financeiro, sem perda de nossas instituições livres ou se, ao contrário, uma ditadura esquerdista se apossará do País, graças, principalmente, ao enfraquecimento e progressivo desaparecimento das Forças Armadas ...”



(Folha da Tarde, 31/03/1964).

“Aquilo que os inimigos externos nunca conseguiram, começa a ser alcançado por elementos que atuam internamente, ou seja, dentro do próprio País.”



(O Globo, 31/03/1964).

"Chegaria o dia em que o Brasil, sem reação e sem luta, se transformaria em mais um Estado Socialista. Aí, todos diriam que desaparecera a legalidade democrática, mas ninguém mais teria como recuperar as perdidas liberdades e franquias, pois já estaria instalado o terror policial e quem sabe? em funcionamento os pelotões de fuzilamento, segundo o modelo cubano.”

“Como dissemos muitas vezes, a democracia não deve ser um regime suicida que dê a seus adversários o direito de trucidá-lo, para não incorrer no risco de ferir uma legalidade que esses adversários são os primeiros a desrespeitar.”

(Correio do Povo, 31/03/1964).

".. Além de que os lamentáveis acontecimentos foram o resultado de um plano executado com perfeição e dirigido por um grupo já identificado pela Nação Brasileira como interessado na subversão geral do país com características nitidamente comunistas.”



(Jornal do Brasil, 31/03/1964).

"O presidente da República sente-se bem na ilegalidade. Está nela e ontem nos disse que vai continuar nela, em atitude de desafio à ordem constitucional, aos regulamentos militares e ao Código Penal Militar. Ele se considera acima da lei. Mas não está. Quanto mais se afunda na ilegalidade, menos forte fica a sua autoridade. Não há autoridade fora da lei. E, os apelos feitos ontem à coesão e à unidade dos sargentos e subordinados em favor daquele que, no dizer do próprio, sempre esteve ao lado dos sargentos, demonstra que a autoridade presidencial busca o amparo físico para suprir a carência de amparo legal. Pois não pode mais ter amparo legal quem no exercício da Presidência da República, violando o Código Penal Militar, comparece a uma reunião de sargentos para pronunciar discurso altamente demagógico e de incitamento à divisão das Forças Armadas”



(Correio da Manhã, 31/03/1964)


Basta!

Até que ponto, o Presidente da República abusará da paciência da Nação? Até que ponto pretende tomar para si, por meio de decretos, leis, a função do poder legislativo?

Até que ponto contribuirá para preservar o clima de intranqüilidade e insegurança que se verifica presente na classe produtora? Até que ponto deseja levar ao desespero, por meio da inflação e do aumento do custo de vida, a classe média e a classe operária? Até que ponto quer desagregar as Forças Armadas, por meio da indisciplina que se torna cada vez mais incontrolável?

Não é possível continuar neste caos, em todos os sentidos e em todos os setores, tanto no lado administrativo, como no lado econômico financeiro.

Basta de farsa! Basta da guerra psicológica que o próprio governo desencadeou, com o objetivo de convulsionar o país e levar avante a sua política continuísta. Basta de demagogia, para que realmente se possam fazer as reformas de base. Quase todas as medidas tomadas pelo Sr. João Goulart, nestes últimos tempos com grande estardalhaço, mas inexeqüíveis, não têm outra finalidade, senão a de enganar a boa fé do povo, que, aliás, não se enganará.

Não é tolerável esta situação calamitosa, provocada artificialmente pelo governo, que estabeleceu a desordem generalizada, desordem esta que cresce em ritmo acelerado e ameaça sufocar todos as forças vivas do país. Não contente de intranqüilizar o campo com o decreto da Supra, agitando igualmente os proprietários e camponeses, de desvirtuar a finalidade dos sindicatos, cuja missão é a das reivindicações de classe, agora estende a sua ação deformadora às Forças Armadas. Destruindo de cima a baixo a hierarquia e a disciplina, o que põe em perigo o regime e a segurança nacional.

A opinião pública recusa uma política de natureza equívoca, que se volta contra as instituições cuja guarda deveria caber ao próprio Governo Federal. Queremos o respeito à Constituição, queremos as reformas de base votadas pelo Congresso, queremos a intocabilidade das liberdades democráticas, queremos a realização das eleições em 1965. Se o Sr. João Goulart não tem a capacidade para exercer a Presidência da República e resolver os problemas da Nação dentro da legalidade constitucional, não lhe resta outra saída senão a de entregar o governo ao se legítimo sucessor. É admissível que o Sr. João Goulart termine o seu mandato de acordo com a Constituição; este grande sacrifício de tolerá-lo até 1966 seria compensador para a democracia. Mas, para isso, o Sr. João Goulart terá de desistir de sua política atual, que está perturbando uma Nação em desenvolvimento e ameaçando levá-la à guerra civil.

A Nação não admite golpe nem contragolpe, quer consolidar o processo democrático para a concretização das reformas essenciais de sua estrutura econômica. Mas não admite que seja o próprio Executivo, por interesses inconfessáveis, que desencadeie a luta contra o Congresso, censure o rádio, ameace a imprensa e com ela todos os meio de manifestação do pensamento, abrindo caminho à ditadura. Os Poderes Legislativo e Judiciário, as classes armadas, as forças democráticas devem estar alertas e vigilantes e prontos para combater todos aqueles que atentem contra o regime.

O Brasil já sofreu demasiado com o governo atual, agora basta!



(Correio da Manhã, 01/04/1964).


"Fora"

A Nação não mais suporta a permanência do Sr. João Goulart à frente do governo. Chegou ao limite a capacidade de tolerá-lo por mais tempo. Não resta outra saída ao Sr. João Goulart senão a de entregar o governo ao seu legítimo sucessor. Só há uma coisa a dizer ao Sr. João Goulart: saia.

Durante dois anos, o Brasil agüentou um governo que paralisou o seu desenvolvimento econômico, primando pela completa omissão o que determinou a completa desordem e a completa anarquia no campo administrativo e financeiro.

Quando o Sr. Goulart saiu de seu neutro período de omissão foi para comandar a guerra psicológica e criar o clima de intranqüilidade e insegurança que teve o seu auge na total indisciplina que se verificou nas Forças Armadas.

Isso significou e significa um crime de alta traição contra o regime, contra a República que ele jurou defender ...”

“ ... O Sr. João Goulart não pode permanecer na Presidência da República, não só porque se mostrou incapaz de exercê-la como também porque conspirou contra ela como se verificou pelos seus

últimos pronunciamentos e seus últimos atos.”

“ ... A Nação, a democracia e a liberdade estão em perigo. O povo saberá defendê-las. Nós continuaremos a defendê-la.”



(Diário de Notícias, 01/04/1964).

“Atualmente, no presente governo, que ainda se diz democrata, a ideologia marxista e mesmo a militância comunista indisfarçada constituem recomendação especial aos olhos do governo. Como

se já estivéssemos em pleno regime marxista-leninista, com que sonham os que desejam incluir sua pátria no grande império soviético, às ordens do Kremlin”



(Jornal do Brasil, 01/04/1964).

"Quem estimula a indisciplina de marujos e fuzileiros e depois os transforma em bandidos e em seguida em pobres diabos pilhados em flagrante?

A partir de 13 de março o Sr. João Goulart tem injuriado muitos, em muito pouco tempo. Agora, ao que tudo indica, já lhe resta muito pouco tempo para injuriar quem quer que seja.”



Essa mesma imprensa que, em 1964, pedia a renúncia de Jango ou a ação imediata da sociedade brasileira, para pôr fim à desordem, hoje, é tomada por estranha amnésia, fruto, certamente, dos profissionais da esquerda que povoam e dominam as suas redações.

Ontem, bradava por uma contra-revolução para impedir a tomada do poder pelos comunistas. Hoje, esquecida, chama de “golpe” a reação dos militares atendendo o chamamento que ela, impulsionada pela sociedade, fez.

Incoerência ou nova insensatez em marcha?

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